Livros que causam, livros com causa
29/02/2024

Um convite a ler mais mulheres

por Michelle Henriques

 

Quando a Joanna Walsh propôs a hashtag #readwomen2014 no final de 2013, eu e muitas amigas paramos para observar nossas estantes. Nós, leitoras e feministas, tínhamos na maioria livros escritos por homens entre os nossos preferidos. Qual seria o porquê disso? Mulheres não escrevem livros bons? Obviamente que isso não era verdade.  

Após um ano de reflexões e leituras, a Juliana Gomes teve a ideia de transformar a hashtag em algo mais prático. Assim nasceu o Leia Mulheres enquanto clube de leitura. Ela convidou a Juliana Leuenroth para a mediação e, logo, eu, Michelle Henriques, me juntei a elas. Em março de 2015 nos reunimos pela primeira vez em São Paulo para conversar sobre A redoma de vidro, da Sylvia Plath, que após anos esgotado, tinha acabado de ganhar uma nova edição no Brasil.  

A ideia do clube foi se espalhando pelo país e hoje estamos em todos os estados brasileiros, em mais de cem cidades e em alguns países como Suíça, Alemanha e Portugal. Somos muito felizes de dizer que graças ao nosso coletivo algumas coisas mudaram no mercado editorial. Os homens ainda são maioria, principalmente na gerência de editoras e de festivais de literatura, mas nós conseguimos ocupar muitos espaços que barravam nossa entrada.  

Lá em 2015 nós pensamos em fazer uma zine com contos escritos por nossas mediadoras. Entre elas temos diversas escritoras talentosas, e queríamos divulgar ainda mais o trabalho delas. A Lizandra, editora da Jandaíra (na época Pólen) abraçou o nosso projeto e propôs de publicarmos um livro, ao invés de zine. Nos juntamos a ela, ao prêmio Sweek, convidamos algumas amigas escritoras e assim nasceu a nossa primeira coletânea.  

São 23 contos que não seguem um tema ou uma voz. Nós quisemos justamente isso, juntar o máximo de diversidade possível. Uma coisa que me incomoda muito é o termo “literatura feminina”. Isso de colocar a escrita de todas as mulheres numa mesma caixinha não faz sentido algum. Quisemos fazer justamente o contrário disso na nossa coletânea, mostrar que mulheres escrevem todo e qualquer tipo de gênero literário. Nossa coletânea tem trauma, tem romance, tem terror, tem esquisitice.  

Leia Mulheres Vol. 1 foi lançado em abril de 2019. Colocamos o Vol. 1 ali no nome justamente porque queríamos que essa fosse a primeira de muitas publicações. Mas veio pandemia, veio esse caos todo que estamos vivendo e o projeto de um novo livro ainda não saiu de um documento do Word. Ainda.  

Sempre brinco que meu maior sonho é que o Leia Mulheres não precise mais existir, que todos deem atenção à literatura escrita por mulheres como dão para a escrita por homens. Quando esse dia chegar, nossa coletânea talvez não se faça mais tão necessária, mas por enquanto, precisamos do volume 2, 3 e assim por diante.  

O mercado editorial ainda está bastante restrito ao mundinho dos homens brancos nascidos em boas famílias (e com bons amigos), e o Leia está aqui justamente para dar espaço a mulheres maravilhosas que não encontram espaço para suas publicações.  

 

Michelle Henriques mora em São Paulo e trabalha com marketing editorial. É uma das cocriadoras do Leia Mulheres e pesquisa terror desde que alugava VHS. 

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