Livros que causam, livros com causa
29/02/2024

Cinco perguntas com Henrique Marques Samyn

Por Maria Ferreira 
 

Cinco Perguntas é um quadro de entrevistas com os autores da Jandaíra. O entrevistado da vez é o professor e pesquisador Henrique Marques Samyn, que além de ser autor do livro Levante e um dos organizadores de Feminismos Dissentes: Perspectivas Interseccionais, publicou em 2023 o livro Os Panteras Negras: Uma introdução. 
 

Redação Jandaíra: Henrique, há quanto tempo você pesquisa sobre o Partido Pantera Negra e qual foi a sua principal motivação para escrever Os Panteras Negras: Uma introdução? 

Henrique Marques Samyn: Comecei a pesquisar sistematicamente a história dos movimentos negros em 2012, mais ou menos, quando comecei a lecionar na UERJ, a fim de ministrar aulas e cursos na universidade. Ao longo desses estudos, percebi quão pouco material havia disponível, no Brasil, sobre os Panteras Negras: encontrei traduções e textos na internet, mas de forma muito dispersa e, geralmente, descontextualizada. Numa tentativa de preencher essa lacuna, eu publiquei, em 2018, a antologia Por uma revolução antirracista: uma antologia de textos dos Panteras Negras (1968-1971), reunindo traduções de 30 textos publicados no jornal do Partido, The Black Panther, com notas explicativas e uma longa introdução. Essa antologia teve uma boa repercussão e tem sido adotada em diversos cursos; mas, com o tempo, senti a necessidade de publicar um livro mais sintético, que funcionasse como uma espécie de manual de referência. Foi a partir dessa proposta que nasceu Os Panteras Negras: uma introdução.
 

RJ: Um tema muito presente em seu livro é a opressão e violência policial que as pessoas negras sofriam nos Estados Unidos. É possível estabelecer conexões com a realidade brasileira? 

HMS: Quando consultamos o Programa de Dez Pontos do Partido Pantera Negra, percebemos que há ali questões pelas quais nós lutamos também no Brasil: emprego, educação, habitação, justiça, etc. Aqui, como lá, é preciso lidar cotidianamente com o genocídio do povo negro. É possível, sim, estabelecer relações; contudo, como enfatizaram os próprios Panteras Negras, é preciso desenvolver estratégias concretas para lidar com demandas específicas, visto que há diferenças muito significativas entre os processos históricos, os contextos políticos e culturais. 
 

RJ: Durante o seu processo de pesquisa para o livro teve alguma descoberta que foi muito surpreendente? 

HMS: Vou responder a essa pergunta de outra forma: ao longo da pesquisa, percebi que havia algumas questões que poderiam ser surpreendentes para o público brasileiro, e que procurei explorar no livro. Me pareceu importante abordar, por exemplo, as tensões entre os Panteras Negras e outros grupos militantes negros estadunidenses, porque isso é fundamental para compreender como eles valorizaram a intersecção entre raça, gênero e classe. Sem isso, é impossível entender as relações que os Panteras Negras estabeleceram com grupos revolucionários brancos. Também considerei relevante evidenciar o quanto os Panteras investiram na construção de uma solidariedade antirracista, considerando a importância da militância amarela no Brasil. A informação de que houve Panteras Negras de ascendência asiática, que chegaram a ocupar postos importantes no Partido, pode surpreender muita gente. Por fim, busquei enfatizar a seriedade com a qual os Panteras encararam a luta antissexista, tanto no que diz respeito à igualdade de gênero quanto em relação às demandas LGBTQIA+. 
 

RJ: Em sua opinião, quais são os legados que os Panteras Negras deixaram para os dias atuais? 

HMS: Em oposição ao que muitas pessoas ainda pensam, a atuação dos Panteras Negras foi muito além das “patrulhas armadas” que tencionavam enfrentar a brutalidade policial. O Partido implementou dezenas de programas e serviços para a população negra e pobre: escolas para crianças e adultos; ações de distribuição de alimentos e roupas; clínicas populares que ofereciam consultas médicas, exames e vacinação, etc. Isso inspirou muitas iniciativas vigentes até hoje em dia – e é uma demonstração de que a ação revolucionária não pode prescindir de um sério processo de conscientização popular. Além disso, o Partido se orientou por um ideário que articulou raça, classe e gênero, quer dizer: construiu uma militância verdadeiramente interseccional, para utilizar um conceito central na agenda contemporânea. E vale notar o modo como os Panteras Negras desenvolveram uma estética negra e a incorporaram à sua atuação política. 
 

RJ: Como você espera que o seu livro contribua para a compreensão da história e do legado dos Panteras Negras? 

HMS: Os Panteras Negras construíram uma das mais relevantes organizações da luta histórica pela emancipação negra, mas sua trajetória ainda não é suficientemente conhecida no Brasil; espero que o livro possa ajudar a preencher essa lacuna – e contribuir para a construção de uma aliança antirracista. Vale dizer que o livro traz uma lista de sugestões bibliográficas para quem desejar conhecer mais profundamente a história e o ideário do Partido Pantera Negra. 
 

Confira também as outras entrevistas do quadro com Márcia Wayna Kambeba, Saberes da Florestae Ay Kakyri Tama - Eu Moro na Cidade, e Lívia Sant’Anna Vaz, autora de Cotas Raciais, livro que integra a Coleção Feminismos Plurais, com coordenação de Djamila Ribeiro. 

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